Bioeconomia: do potencial à escala

O Brasil reúne alguns dos principais ativos para o desenvolvimento de uma bioeconomia competitiva: biodiversidade, conhecimento científico, tecnologias, recursos biológicos e uma diversidade de povos e comunidades que há gerações desenvolvem formas de produzir a partir dos territórios.
Mas ter potencial não significa, necessariamente, conseguir transformá-lo em escala. O desafio está em criar as condições para que conhecimento, capital, infraestrutura, cadeias produtivas e mercados consigam se conectar e gerar valor de forma sustentável.
Uma agenda que já ganhou escala global
A bioeconomia deixou de ser uma agenda restrita a determinados setores e passou a ocupar espaço nas estratégias de desenvolvimento de diferentes países. Atualmente, mais de 60 países e regiões possuem estratégias relacionadas à bioeconomia ou à biociência. No Brasil, esse movimento ganhou um marco importante em junho de 2024, com a instituição da Estratégia Nacional de Bioeconomia pelo Decreto nº 12.044.
A estratégia brasileira adota uma visão que combina desenvolvimento econômico, conservação e regeneração da biodiversidade, ciência, tecnologia, conhecimentos tradicionais e geração de trabalho e renda. Entre seus objetivos estão fortalecer as economias florestal e da sociobiodiversidade, ampliar a participação de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares nos mercados e direcionar instrumentos financeiros para o desenvolvimento da bioeconomia.
Em 2026, esse caminho avançou com o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, que organiza ações em torno de temas como instrumentos financeiros, infraestrutura, sistemas produtivos sustentáveis, mercados, cadeias de valor, educação, pesquisa, ciência, tecnologia e inovação. A agenda, portanto, está estruturada. A questão agora é como transformar esse potencial em atividade econômica capaz de ganhar escala sem perder seus fundamentos sociais e ambientais.
Potencial não é escala
O desenvolvimento da bioeconomia enfrenta gargalos que não são apenas financeiros. O diagnóstico do próprio governo brasileiro aponta desafios relacionados à infraestrutura, qualificação profissional, financiamento, dados e informações, governança e coordenação entre políticas e instituições. O PNDBio também destaca que o capital disponível ainda é disperso e que é necessário melhorar sua integração, rastreabilidade e direcionamento para iniciativas capazes de alcançar escala.
Isso ajuda a explicar por que uma iniciativa com um bom produto ou uma matéria-prima de alto potencial pode não conseguir avançar. Uma comunidade pode ter produção, mas não contar com estrutura adequada para beneficiamento e armazenamento. Pode existir demanda de mercado, mas faltar capacidade de atender requisitos de qualidade, volume ou rastreabilidade. Pode haver um projeto promissor, mas não existir capital adequado para atravessar o período entre a produção e a comercialização.
Na Amazônia, por exemplo, análises recentes da OCDE apontam a falta de capital para apoiar projetos de bioeconomia em fases de expansão, além de desafios relacionados à infraestrutura e às condições dos mercados. Por isso, financiar uma atividade isoladamente nem sempre é suficiente.
Na sociobioeconomia, a escala precisa considerar o território
Quando falamos em sociobioeconomia, existe uma dimensão adicional. O desenvolvimento econômico está diretamente relacionado aos territórios, à biodiversidade e às pessoas que vivem e produzem neles. Povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares não são apenas fornecedores de matéria-prima. Seus conhecimentos, formas de organização e relações com o território fazem parte do próprio funcionamento dessas cadeias.
A Estratégia Nacional de Bioeconomia reconhece essa dimensão ao estabelecer, entre suas diretrizes, o respeito aos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, a valorização da biodiversidade, a repartição justa de benefícios e a ampliação da participação desses grupos nos mercados e na renda. Isso significa que ganhar escala não pode ser entendido apenas como produzir mais. Também significa fortalecer a capacidade de produzir, organizar, beneficiar, comercializar e decidir sobre os próprios caminhos de desenvolvimento.
Escalar exige conexão
É nesse ponto que a estruturação se torna fundamental. Capital precisa encontrar projetos capazes de utilizá-lo de forma estratégica. Conhecimento técnico precisa dialogar com os saberes locais. A infraestrutura precisa responder às necessidades reais das cadeias. Organizações precisam ter capacidade de gestão. E os produtos precisam encontrar mercados que reconheçam seu valor.
Na prática, isso pode significar investir em uma unidade de beneficiamento, melhorar processos produtivos, capacitar uma organização, fortalecer a governança de uma cooperativa, desenvolver mecanismos de rastreabilidade ou criar conexões comerciais. O desafio, portanto, não é apenas encontrar recursos para uma atividade. É entender quais são os elos que limitam seu desenvolvimento e direcionar esforços para fortalecê-los. Quando essas conexões existem, o capital pode deixar de financiar apenas uma etapa da cadeia e passar a contribuir para sua capacidade de gerar valor no longo prazo.
Um exemplo de estruturação na prática
O projeto Castanheiros do Unini, desenvolvido pela VBIO na Reserva Extrativista do Rio Unini, no Amazonas, ajuda a visualizar essa lógica. A iniciativa fortaleceu a cadeia produtiva da Castanha da Amazônia e a estrutura da COOMARU, beneficiando diretamente 100 extrativistas. Ao longo do projeto, 4,3 toneladas de castanha foram beneficiadas e 80% das exigências do MAPA para usinas de beneficiamento de produtos da sociobiodiversidade foram atendidas, contribuindo para a abertura de novos mercados.
O ponto central não era simplesmente aumentar a produção. Era fortalecer os elos que permitiam que aquela produção permanecesse no território, fosse beneficiada, atendesse aos requisitos necessários e chegasse a novos mercados. É esse tipo de estrutura que transforma potencial em capacidade econômica.
Condições para ganhar escala
É nesse espaço entre potencial e escala que o Fundo Ancestra atua. Idealizado por GSS, Instituto GEN e Action, o Fundo direciona recursos a projetos de sociobioeconomia capazes de fortalecer comunidades, cadeias produtivas e territórios no longo prazo. Sua atuação prioriza quatro frentes: resiliência climática e conservação; infraestrutura socioprodutiva e cadeias de valor; biociência e bioprospecção; e desenvolvimento e inclusão social.
Dentro dessas frentes, são apoiadas iniciativas que podem fortalecer cadeias socioprodutivas, infraestrutura local, qualificação da força de trabalho e sistemas cooperativos. A lógica é ampliar a capacidade dos territórios de gerar valor a partir de seus próprios ativos, combinando recursos financeiros com estrutura, conhecimento e acompanhamento. Assim, o financiamento não se limita a viabilizar uma atividade. Ele contribui para criar condições para que ela se fortaleça e avance.
Do potencial ao futuro possível
A bioeconomia brasileira não começa do zero. Ela já existe nos territórios, nas cadeias da sociobiodiversidade, nos conhecimentos tradicionais, na ciência e nas empresas que desenvolvem novos produtos e tecnologias a partir de recursos biológicos.
O desafio é criar as condições para que esse potencial possa gerar mais valor sem romper as relações que sustentam os territórios. Isso exige capital, mas também exige estrutura. Exige inovação, mas também conhecimento local. Exige acesso a mercados, mas também governança e capacidade produtiva. Transformar potencial em escala é, portanto, uma questão de conexão.
E é justamente a partir dessas conexões que a sociobioeconomia pode deixar de ser apenas uma promessa de futuro para se consolidar como uma alternativa concreta de desenvolvimento, geração de renda e conservação da biodiversidade. É esse caminho que o Fundo Ancestra busca fortalecer.
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