Conhecimentos ancestrais que protegem vidas, territórios e biodiversidade
- Fundo Ancestra

- 11 de ago.
- 4 min de leitura

Em 9 de agosto, o mundo celebra o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Em 2026, as Nações Unidas escolheram como tema "Homenageando as Parteiras Indígenas: Protegendo a Vida e o Bem-Estar", reconhecendo que essas mulheres desempenham um papel essencial na proteção da saúde, da cultura e dos territórios.
Muito além do cuidado durante o nascimento, as parteiras indígenas representam um sistema vivo de conhecimentos tradicionais que conecta saúde comunitária, conservação da biodiversidade, segurança alimentar, gestão territorial e resiliência climática.
No Fundo Ancestra, reconhecemos que parte da solução para os desafios ambientais e sociais do século, necessariamente, passa pela valorização dos povos indígenas e de seus conhecimentos ancestrais.
O que representa o tema do Dia Internacional dos Povos Indígenas de 2026?
A Organização das Nações Unidas coloca as parteiras indígenas no centro do tema de 2026, ampliando o debate sobre o papel dos povos originários na construção de sociedades mais resilientes.
As parteiras preservam conhecimentos transmitidos entre gerações sobre plantas medicinais, alimentação, cuidados maternos, espiritualidade, manejo do território e organização comunitária. São práticas desenvolvidas ao longo de séculos e continuamente aperfeiçoadas pela experiência coletiva. Proteger essas mulheres significa proteger um patrimônio biocultural que beneficia não apenas as comunidades indígenas, mas toda a sociedade.
Parteiras indígenas: guardiãs da vida e do conhecimento tradicional
Cada parto realizado por uma parteira indígena representa muito mais do que um atendimento à saúde. É um momento em que conhecimentos sobre biodiversidade, medicina tradicional, práticas culturais, idiomas, espiritualidade e organização social são mantidos vivos. Essas mulheres articulam diferentes formas de conhecimento para garantir o bem-estar das famílias e fortalecer a autonomia das comunidades. Ao proteger o nascimento dentro dos territórios indígenas, elas contribuem para a continuidade da cultura, da identidade e da relação sustentável entre pessoas e natureza.
Biodiversidade e diversidade cultural caminham juntas
Os povos indígenas representam aproximadamente 6% da população mundial, mas seus territórios concentram cerca de 80% da biodiversidade remanescente do planeta. Essa realidade demonstra que conservar ecossistemas também significa fortalecer quem historicamente protege esses territórios.
Além do cuidado materno e neonatal, muitas parteiras são detentoras de amplo conhecimento sobre espécies medicinais, ciclos naturais e práticas tradicionais de manejo, contribuindo diretamente para a manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais ao equilíbrio climático.
Seu trabalho integra diferentes dimensões:
conhecimento sobre plantas medicinais e instruções tradicionais;
promoção da saúde física, espiritual e comunitária;
fortalecimento da autonomia das mulheres indígenas;
preservação da memória cultural;
proteção dos territórios e dos recursos naturais.
O reconhecimento das parteiras como patrimônio cultural
Em maio de 2024, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu o Ofício das Parteiras Tradicionais como Patrimônio Cultural do Brasil. Reconhecimento que fortalece a proteção desses saberes e dialoga diretamente com compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), especialmente o Artigo 8 (j), que trata da valorização dos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade, além do Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal. Mais do que proteger uma prática cultural, trata-se de reconhecer um conhecimento estratégico para o futuro.
Conhecimento tradicional também gera valor
Durante décadas, o conhecimento associado à biodiversidade foi utilizado sem reconhecimento ou repartição justa de benefícios. Hoje, instrumentos como o Acesso e Repartição de Benefícios (ABS), previsto no Protocolo de Nagoya e na Lei nº 13.123/2015, representam um avanço importante para garantir que comunidades detentoras desses conhecimentos participem dos benefícios gerados a partir de sua utilização.
Esse modelo promove maior segurança jurídica, fortalece a governança e estimula cadeias produtivas mais éticas, transparentes e sustentáveis. Mais recentemente, as decisões internacionais também ampliaram esse reconhecimento ao incluir povos afrodescendentes e comunidades tradicionais como atores fundamentais para a conservação da biodiversidade.
O papel do Fundo Ancestra na valorização dos conhecimentos ancestrais
O Fundo Ancestra foi criado para conectar capital de impacto à sociobioeconomia brasileira por meio de uma estrutura que integra conservação ambiental, desenvolvimento territorial e valorização dos conhecimentos tradicionais. Nossa atuação parte do entendimento de que investir em biodiversidade também significa investir nas pessoas que historicamente mantêm esses ecossistemas vivos.
Iniciativas voltadas ao fortalecimento de redes de comunidades tradicionais, como as de parteiras, mestres e aprendizes, à proteção do patrimônio biocultural e ao desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis representam investimentos em capital humano, natural e cultural, que o Fundo Ancestra reconhece muito.
Nossa estratégia está estruturada sobre três pontos principais:
Valorização dos saberes locais
Fortalecimento da governança indígena e proteção das tecnologias sociais ancestrais, respeitando a autonomia das comunidades.
Sociobioeconomia de impacto
Estruturação de cadeias produtivas regenerativas capazes de gerar renda, inclusão e conservação da biodiversidade.
Proteção dos ecossistemas
Apoio a iniciativas que fortalecem a gestão territorial, o manejo sustentável e a manutenção dos serviços ecossistêmicos fundamentais para o equilíbrio climático.
Investir em ancestralidade é investir em resiliência
A crise climática exige novas formas de pensar investimento, desenvolvimento e conservação. Dessa maneira, os conhecimentos indígenas passam a ser reconhecidos como ativos estratégicos para a construção de soluções baseadas na natureza.
As parteiras indígenas simbolizam essa integração entre cuidado, território, biodiversidade e continuidade da vida. Homenageá-las é reconhecer que inovação e ancestralidade não são caminhos opostos, mas complementares.
No Fundo Ancestra, acreditamos que fortalecer os povos indígenas e suas formas de organização é fortalecer também a sociobioeconomia brasileira, a conservação da biodiversidade e a construção de uma economia capaz de gerar prosperidade respeitando a vida, os territórios e as futuras gerações.



Comentários